01 ago
por Francisco Antônio de Andrade Filho

Como a ciência se revela poder da vida? E na era digital, qual a importância de se discutir responsabilidade no ciberespaço?
Trata-se de um saber eminentemente tecnicizado, governado de modo quase absoluto – “global”, um gigantesco processo de produção racionalizado e industrializado.
Objetivo mostrar que, dado esse processo histórico, o conhecimento científico se torna cada vez mais um poder. E é este próprio poder que irá constituir nas sociedades industrializadas, a significação real da ciência. Deverá ser procurada no poder que o saber hoje em dia confere. É a verdade revelada, imposta e ensinada dogmaticamente, sem nenhum senso crítico nos dias de hoje. Torna-se um jogo político, um discurso político-ideológico da ciência e da tecnologia.
Existe o mito da ciência pura e neutra? Do mesmo modo a instituição, caracterizada sistema, assim a ciência não pode ser neutra nem pura. Basta pensar na “irresponsabilidade social” dos cientistas e, do outro lado, no fornecer ao Estado uma justificação da pesquisa científica alienada da política.
É verdade, não se pode negar, a dimensão social da Ciência e da Tecnologia. Quer queiramos, quer não, a ciência tem uma função social crescente no desenvolvimento da sociedade e no progresso tecnológico. De outro, constata-se a ausência da responsabilidade ética nos dias de hoje, resultados do desenvolvimento científico para o homem.
E existe hoje uma forte consciência dos problemas ecológicos frente à degradação das relações individuais nas sociedades industrializadas, dizer, hoje, sociedade da era digital, a utilização das pesquisas científicas para fins destruidores, a possibilidade de manipulação crescente dos indivíduos, a utilização maciça dos cientistas, de seus métodos e de seus produtos para fins repressivos e recessivos, a obsessão patológica pelo consumo.
Em destaque, evoco pensamentos favoritos de alguns especialistas em responsabilidade social no mundo da internet, assim:
Manfredo Oliveira enfatiza:
“Pela primeira vez na história mundial, torna-se claro, em decorrência dos perigos que dizem respeito à humanidade global, que os homens são interpelados pelo perigo comum a assumir, juntos, a responsabilidade moral: a civilização técnico-científica confronta todos os povos da Terra, independentemente de suas tradições morais específicas, com uma problemática ética comum: a responsabilidade solidária em escala planetária!”
Leonardo Boff focaliza três questões:
1. Responsabilidade pelo meio ambiente, que se traduz por um pacto do cuidado, de benevolência e de respeito para com a natureza, condição para todos os demais pactos.
2. Responsabilidade pela qualidade de vida de todos os seres, a começar pelos humanos e a partir daí, abrindo-se para os demais seres (florestas, rios, animais, microorganismos, ecossistemas), pois todos pertencem à comunidade biótica e terrenal, são interdependentes e, por isso, têm direito de ser e viver junto conosco…
3. Responsabilidade entre gerações: pacto com as gerações atuais que têm o direito de herdar uma Terra habitável, instituições político-sociais minimamente humanas, e uma atmosfera cultural e espiritual benfazeja com a vida em suas múltiplas formas, com uma fina sensibilidade para com todos os seres, companheiros de aventura terrenal e cósmica e para com a Fonte originária de tudo: Deus.
Neste sentido, sustenta-se, não só a existência humana é mutável e evolutiva, mas também, os princípios éticos. A ética, como a vida é uma contínua descoberta de sentido e de estilos de se viver com dignidade. As verdades éticas absolutas são incompatíveis com o processo temporal da existência, notadamente nesta época de extraordinárias e profundíssimas descobertas no campo das biotecnologias que obrigaram a repensar nossos modos tradicionais de conduta.
Baruch de Espinosa em sua obra “Ética”: “Mas como os homens no começo, com instrumentos inatos, puderam fabricar algumas coisas muito fáceis, ainda que laboriosas e imperfeitamente, feitas que, fabricaram outras coisas mais difíceis, com menos trabalho e mais perfeição, passando gradativamente das obras e instrumentos, para chegar a fazer tantas coisas e tão difíceis com pouco trabalho, também o intelecto, por sua forma nativa, faz para si instrumentos intelectuais e por meio deles adquirir outras forças para outras obras intelectuais, graças às quais fabrica outros instrumentos ou poder de continuar investigando, e assim prosseguindo gradativamente até atingir o cume da sabedoria.”
É verdade, não se pode negar a dimensão social da ciência e da tecnologia. Quer queiramos, quer não, a ciência tem uma tarefa social no desenvolvimento atual dessa sociedade tecnológica. É a ética da pesquisa em ciência e tecnologia. É ético, pensar e viver assim? Seria o agir dos que habitam no ciberespaço?
04 jul
por Francisco Antônio de Andrade Filho

Livre e atento, li mais uma obra de Rubem Alves “O infinito na palma de sua mão: O sonho divino ao nosso alcance” da Editora VERUS, Campinas, SP, 2007. Deste livro, produzi uma conversa com esse escritor sobre o significado da oração em nossa busca eterna de Deus ou Natureza. Na fala aqui delineada, destaquei o segundo item “Sobre deuses e rezas” do referido livro, p. 18 a 21. Ligado pela luz da vida, desejo descobrir a riqueza da verdade nesse encontro com o autor do livro. Seria esse o caminho que nos leva à fonte divina no infinito dos Universos?
Aconteceu no aeroporto lotado de viajantes. Sobre deuses e rezas, já estava escrito “na palma de sua mão”. Rubem Alves lança o olhar numa “figura destoante”, cujo corpo revelava uma alma que “não mais ligava para sua condição de mulher: não se importava com ser bonita”. Esquecida de si mesma, ela não brilhava mais. Vivia a vida do outro. Presa, vivia em gaiolas das religiões organizadas. Não era mais “uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça”. Distante de suas próprias energias, aquela infeliz pessoa perdeu sua beleza. Sem auto-estima, não atraiu o melhor para si mesma.
E o teólogo-escritor, habilmente fotografou a postura da crente, assim: “Quando vi que tinha uma Bíblia na mão, compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma”.
Calmo, Rubem a reconheceu e chamou alto o seu nome. De súbito, assustada e sem escutar Deus na Sagrada Escritura, inicia seu falatório. Sábias palavras deste autor jogam luzes na tagarelice da missionária de Jesus Cristo. Com extrema delicadeza e respeito, ele busca chegar ao coração e à mente da pregadora. Desperta-a para o agora, acordando um desejo de viver de forma diferente: de aproveitar cada instante; de valorizar cada minuto de suas vidas; de celebrar a beleza da verdade e da leveza na busca do divino.
Nessa busca de Deus – vejam-se trechos das páginas 19 a 21, assim -, os dois, em diálogo, tocam o corpo e a alma de um no outro e de seus leitores. Revelam suas experiências e desvelam o vivido do outro, também entrelaçado de desejos de encontrar uma “Fonte Divina” em evolução:
– Eu sou o Rubem!
- Você continua firme na fé! – ela afirmou interrogativamente!
- Mas de jeito nenhum – respondi. – Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos [...]
Segundo esse artista da letra, ela ficou toda atordoada por ter ouvido resposta tão estranha. Como se estivesse no púlpito, com seu poder sacro e sua roupa largada, a pastora desembestou a falar de Deus maravilhoso. Pediu a Jesus Cristo a salvação da alma do filósofo ateu. Que o Espírito Santo o ilumine para se livrar da Geena do Inferno!
- Acho que quem não está firme em Deus é você – eu disse. – Olha, passei a noite toda respirando desde que acordei e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar, porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença [...] Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele, não é preciso falar. Mas, quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando por Deus. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que sempre anda com Deus engarrafado em Bíblia e noutros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado…
- Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo [...] e disse que oraria muito por mim.
- Então eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas [...]
- Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório, é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio [...]
- Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez de meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia.
A exemplo desse escritor, desejo voar. Conversei com Rubem Alves “sobre deuses e rezas”. Percebi que ele vê Deus ao contrário daquilo que aprendemos em Filosofia e Teologia. Com ele, tomo a liberdade de acrescentar dois tópicos para comentários:
I – De verdade, surge um debate importante para os dias de hoje e no mundo religioso. Com o nascimento da teologia de libertação, pesquisava-se uma nova práxis da fé cristã que fosse fator de transformação e libertação. Exigia-se uma nova prática da mensagem do bem em contraposição a do mal. Surgia um novo tipo de inteligência da fé, uma reflexão sobre os compromissos assumidos pelos cristãos em situação de conflitos sociais. As injustiças, a miséria, a falta de respeito para com a riqueza social e as liberdades da coletividade, praticadas pela oligarquia política e religiosa levam a América Latina tomar consciência de seus direitos e deveres.
II – Quando da visita do Papa Bento XVI a este País, maio de 2007, os católicos curvavam-se aos pés e veneravam o pastor-magistrado na cidade paulista. É o poder eclesiástico, identificado como autoridade divina. É o mito dos pastores divinos. E, segundo Platão, é o Deus-Pastor em sua relação com o rebanho, dando-lhe e garantindo uma terra. Exerce o poder sobre ele. Reúne, guia e conduz seu rebanho. Garante a salvação. Toma decisões no interesse de todos. Pois, segundo o mesmo filósofo, “… em se tendo por pastor a divindade, a humanidade não precisava de constituição política”. Deus providenciava tudo: frutos da terra, moradia, vida. Não era preciso se preocupar com nada. Deus satisfazia suas necessidades materiais.
14 set
Francisco Antônio de Andrade Filho
“Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também seu irmão” (I Jô. 4,20-21).
Nesta primeira carta de João, registrada na Bíblia, Deus fala sobre o amor. Revela uma profunda espiritualidade, o mais nobre sentimento de que é capaz o ser humano. O amor não se reduz à mera simpatia romântica, e muito menos à atração sexual. Consiste, essencialmente, em querer o bem do outro, empenhando nesta vontade o próprio ser. É o dom do ser próprio.
A experiência mostra que o amor não é olhar um para o outro, mas olhar junto na mesma direção. Sabe compreender as fraquezas sem justificá-las; sabe valorizar as qualidades, sem as lisonjear.
Se os seguidores dos líderes espirituais oferecessem a Vítima Divina ao Pai no altar, lembrando que seus irmãos têm algumas queixas contra eles, porque tramaram contra sua felicidade – mas não tivessem o coração repleto de amor -, em nada ajudariam a ninguém.
Se você está triste porque alguém invejoso ameaça sua posição, lembre-se daquele que nunca teve a oportunidade na vida.
Se você se decepciona com a ingratidão e com o não-reconhecimento pelo que você fez, lembre-se daquele cujo nascimento foi uma decepção.
Se um sonho seu foi desfeito, lembre-se daquele que vive num pesadelo constante, enganando-se a si mesmo, com sua vida incoerente.
A amizade é paciente, benigna. Não é ciumenta nem invejosa. Não se exibe, não se inflama de orgulho, não procura o próprio interesse, e deseja o mesmo bem para o outro. Não se irrita, não se alegra com as covardias e as traições, mas se compraz na verdade. Tolera tudo. Crê. Tudo suporta. Nunca decepciona.
Se eu pudesse trazer a escritora Lya Luft para uma aula magna numa Universidade, eu lhe pediria repetir a beleza de sua obra “Secreta Mirada”, 3ª edição, São Paulo: Mandarim, 1997: 209, nesta passagem:
“Não se cultiva o amor. Pode-se cultivar o convívio, porque ele exige treinamento e paciência, e acomodamentos nem sempre fáceis. Exige, mais que tudo, que se inventem certos pequenos rituais até inconscientes, para que não sufoque a poeira desse cotidiano com sua inevitável banalidade”.