O Recado da Pesquisa

reflexões filosóficas em diversas áreas

03 jul

Promessa de uma Assembléia Nacional Constituinte


por Francisco Antônio de Andrade Filho

Catedral de Brasília

 

Tancredo de Almeida Neves, José Sarney e a CNBB dispersaram as massas. Escorados em suas armas de comando, desintegraram-nas com promessa de uma Assembléia Nacional Constituinte. Temeram o Povo.

A Mensagem nº 343/85 e a Emenda Constitucional nº 26/85, José Sarney convocou a Assembléia Nacional Constituinte. Dois anos mais tarde, em 01/02/1987, com os discursos de instalação e posse do evento, do Presidente do Supremo Federal José Carlos Moreira Alves; o Deputado Ulisses Guimarães foi eleito Presidente da Constituinte.

Sob a égide da modernidade, evocada na tradição, os representantes políticos e eclesiásticos garantiram uma nova constituição. Quais imperadores e inimigos das massas, eles se denominaram tutores da soberania popular. Garantiram às multidões substituir o caos jurídico-institucional da velha constituição, imposta em 1969 pela Junta Militar do regime autoritário.

Para essa elite política, parecia fácil derrotar a concentração do poder e da renda – corrosão dos valores básicos -, tudo isso substituído por uma nova constituição. Nascia um novo império camuflado no projeto político, defensor das liberdades democráticas e conquistas sociais almejadas por todos os “brasileiros e brasileiras”.

A CNBB não se omitiu ao acontecimento. Pois, seu Presidente, Dom Ivo Lorscheiter, em 31 de janeiro de 1987, véspera da instalação do evento constituinte, falou: ”O momento político em que vivemos é de transição…”. Inserida na História, a Igreja é o mundo dos homens, com os mesmos desejos de mando na liberdade do outro. Por mimese, fala a linguagem dos políticos. Ameaçada, teme as massas.

As colunas do Trono e do Altar se associam, instaladas na Assembléia Nacional Constituinte. Assim, na Catedral de Brasília, o Presidente da CNBB evoca a proteção divina e o respeito aos ditames da reta consciência à lei de Deus. E dita: “O nome de Deus presidirá, então, não apenas o texto escrito, mas a organização concreta da sociedade brasileira e a vida do povo”.

Foi nessa época que, naquele mesmo templo religioso, o “Te Deum Laudamus” é entoado, uníssono, com o “Hino Nacional” no Congresso. Deslocado, cheio de louvores, em Latim e em Português, Deus não mais detesta a tirania, nem desaprova aos tiranos. É que a CNBB sentou-se no “Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte” para a politicalha, da burguesia brasileira ser protegida e abençoada por Deus. Objetiva-se com isso, escrever a lei da Democracia impossível, enquanto governo da ganância do capital e (des)governo do trabalho.

Para tanto, lenta e sorrateiramente, a Igreja se movimenta em direção ao povo. Fala. Escreve. Ora. Age para não ser tocada nem fisgada pela massa Sabe que, ao destruir diferenças e aniquilar “Hierarquias firmemente estabelecidas, na conquista da igualdade com o outro, a massa popular se volta contra ordens tradicionais – quer políticas, econômicas, filosóficas ou religiosas -, “já não se conforma com condições e promessas piedosas”.

Na expressão de Elias Canetti, é “o perigo”, a paranóia dos que mandam, rondando na igualdade das multidões, que não distinguem nem superior, nem súdito; nem Presidente, nem deputados e senadores; nem Papa, nem CNBB e nem leigos. As massas querem experimentar por si mesmas o sentimento supremo de sua potência e de sua paixão selvagens.


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