Democracia delegativa
A América Latina, diferentemente do que aconteceu na Europa e nos EUA, passou nas últimas décadas por uma transição dos regimes autoritários dominados pelos governos militares para a democracia. No esforço de qualificar estas democracias, tem-se tentado adjetivá-las. Entre estas tentativas está a de denominar nossa experiência democrática atual de “democracia delegativa”.
No cerne do modelo democrático vigente em nosso meio está a idéia do sufrágio universal. O sufrágio universal faz com que impere na política a mesma lógica competitiva que domina na economia. A democracia é como um “mercado”, isto é, um mecanismo institucional para eliminar os mais fracos e para estabelecer os mais competentes na luta competitiva pelos votos e o poder. O papel central nesta competição está destinado à liderança política.
A liderança política é um método para chegar a decisões políticas, em que os indivíduos adquirem o poder de decidir por meio do voto do povo. A democracia fica reduzida a um procedimento de escolha mediante o qual o povo cria um governo elegendo um líder entre líderes que competem livremente pelo voto dos eleitores. É à liderança que cabe chamar à vida as massas, despertá-las e provocar suas opiniões e vontades. As lideranças são eleitas para decidir, inclusive para decidir sobre quais temas deverão ser tomadas decisões. A democracia fica restrita, então, à competição de lideranças enquanto as não-lideranças (os eleitores) participam da “coisa pública” unicamente nas eleições. Aquele que ganha a eleição está autorizado a governar como lhe parecer conveniente. Não fica submetido às promessas feitas no decurso da campanha. Depois da eleição, espera-se que os eleitores retornem à condição de espectadores passivos…. até a próxima eleição!
Por que os cidadãos (os “delegadores”) delegam? Fundamentalmente, devido ao seu desinteresse pela coisa pública, à irracionalidade frente à falta de informação e pela distância da responsabilidade. Como se explica que os governantes “salvadores da pátria” possam fazer o que quiserem sem sanção dos votantes? Basicamente por causa da idéia de que, mediante o voto, se firma um cheque em branco.
A democracia delegativa é fortemente individualista. Pressupõe-se que os eleitores elejam, independentemente de suas identidades e afiliações, a pessoa mais capacitada para cuidar dos destinos da coletividade. As eleições nas democracias delegativas são um processo extremamente emocional e que envolve altas apostas: vários candidatos competem para saber quem será o ganhador da delegação para governar sem quaisquer outras restrições, a na ser aquelas impostas pelas relações de poder.
A democracia delegativa, como vemos, transfere (“delega”) ao eleito o direito e a responsabilidade pelos destinos da coletividade. Os eleitores (“delegadores”) limitam sua participação política à eleição. Os cidadãos se comportam em relação aos candidatos como consumidores: escolhem o “produto” que melhor responde aos seus desejos. A propaganda eleitoral contribui decisivamente para a mercantilização da política. As lideranças apresentadas como candidatos recebem uma produção similar àquela que se faz para vender qualquer mercadoria: o consumidor (eleitor) compra (vota) pela embalagem. Por isso, o argumento de que o “mais capaz” é eleito é falso. Por causa da propaganda, o eleitor não tem como saber quem é o mais preparado. A grande diferença é que, enquanto o consumidor pode trocar a marca do produto no momento em que lhe aprouver, o eleitor só poderá trocar de governante depois de quatro anos de “uso”. Para completar a desgraça, na política ninguém é punido por propaganda enganosa.
*José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da Unioeste/Campus de Toledo.
Veja também:
- Democracia e Representação
- Lula em Defesa da Democracia [Recados de Política e Cidadania]
- Democracia e eleições
- Democracia e eleições: para que serve propaganda eleitoral?
- Democracia e segredo
Parte-se do pressuposto de que os eleitores conhecem o candidato e suas propostas, além do “histórico” deste. Creio que problema não é da democracia delegativa, mas sim da falta de informação e consciência de quem vota. Se, teoricamente, a maioria dos “delegadores” procurar se informar do candidato e suas pretensões, a democracia delegativa funcionará bem.
Além disso, tomando como exemplo o Brasil, nossa Constituição Federal apresenta mecanismos para que a vontade popular possa ser expressa. O plebicito e o referendo servem como exemplos.
Nosso país tem uma democracia delegativa que ainda engatinha, mas que, espero, trará boas surpresas para futuras gerações.
hols quiero saber q es delegativa porfavor com esta compuesto……
Nossa … um defensor da democracia delegativa ???
Eu não concordo com o comentário do Thiago…
A democracia delegativa já é um paradoxo em seu nome .. como é democracia se apenas um toma decisões ?? o problema é sim a forma em que está enraizada nossa política, os governantes usam desse sistema eleitoral apenas para legitimar suas vontades monística de governo.
e tem gente que aplaude de pé !!!
Estou fazendo um trabalho que tenta demonstrar como é possível mudar da nossa democracia delegativa para uma democracia participativa !!
E veremos que temos muitos meios de se ter uma política de governo, com a preocupação da accontabilitiy e efetivação da vontade popular, mais economicamente viável que o plebicito e referendo.
Uma visão esclarecedora sobre a democracia delegativa. Obrigado pelas informações, eu precisava de uma definição do tema para compreender um texto de políticas públicas.
Me diga as diferenças entre seu texto e a tese de O’Donnell?