Maquiavel: o direito e a força
Governar é optar. O ato de escolha necessariamente favorece alguns e prejudica outros. Todo segredo da arte política consiste nisso: inventar um mecanismo de decisão que gere mais favorecidos do que prejudicados. Esta constatação remete a outra: política é conflito, luta, antagonismos, enfrentamentos. Numa palavra, política é guerra, violência. Pode até ser pacifista, mas não pacífica. Isto é, pode ter a paz como objetivo, mas não como meio.
A política é guerra não porque as pessoas vivem se matando umas às outras, mas porque vivem num constante enfrentamento de interesses. Esses interesses são agrupados por partidos. Os partidos têm “militantes”. A guerra tem “militares”. Nos dois casos, a luta é comandada por uma “milícia”, isto é, por combatentes. Uma vez que a política se rege pela lógica da guerra, tem em vista destruir os interesses do outro e dominá-lo. Assim, a política é esta singular relação humana na qual uma parcela de homens exerce o poder sobre e contra outra parcela. Logo, poder político é violência e opressão.
O que determina o poder que um indivíduo exerce sobre o outro, o poder que um partido exerce sobre a sociedade, o poder que o Estado exerce sobre a coletividade, é a força relativa de cada um. O Estado é mais violento do que o indivíduo, porque reivindica o monopólio da força legítima. “Legítima”, eis o problema do “direito” de oprimir. A violência praticada por um indivíduo sobre outro é punida pelo Estado em base ao “direito”. Onde se funda o direito do Estado? Unicamente no fato de monopolizar a força. O que limita esse direito? A força de fato dos indivíduos. Do mesmo modo, os direitos dos cidadãos são determinados por suas próprias forças e limitados pela força do Estado. Isso significa que o poder do Estado é absoluto de direito, mas não de fato, pois é limitado pela força dos indivíduos. Igualmente, o poder político é opressor, mas a opressão é finita.
Maquiavel traduz essa luta por meio de uma metáfora. Segundo ele, “existem dois gêneros de combates: um com as leis e outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo dos animais” (O Príncipe, cap. XVIII). As leis, isto é, o “direito”, se fundamenta na força. O homem se assegura no animal. O racional é sustentado pelo irracional.
Uma vez que é imprescindível o emprego da força, isto é, da natureza animal, Maquiavel sugere “escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que fizerem simplesmente a parte do leão não serão bem-sucedidos” (O Príncipe, cap. XVIII). A força não é bruta. A verdadeira força é aquela que vem somada à astúcia. O poder do Estado não está no número de militares ou de armas. Está nos ardis que emprega para universalizar as escolhas parciais que toma. A verdadeira força está na raposa, não no leão.
A violência política é dissimulada. A raposa disfarça, aparenta estar morta. Soldados e tanques escancaram a opressão. Revelam a face odiosa da violência e alimenta a revolta. A ostensiva demonstração de força acaba por mostrar-se fraqueza. O leão fica preso nos laços. É preciso a raposa para soltá-los. É necessário habilidade para dissimular a violência da força bruta. Para aqueles que acompanham as tropas americanas no Iraque, nada mais é preciso ser dito.
*José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da Unioeste, campus de Toledo.
Veja também:
- Maquiavel: A Vitória sem Memória
- Origem do Pensamento Político da CNBB – tempo de abater a monarquia de direito divino
- Maquiavel: o Mestre da Política
- Tomás de Aquino e o direito à revolução
- Natureza Humana e Sua Relação com o Estado em Maquiavel [parte I]
Texto muito bom.
Simples, direto e com raciocinio logico mt bons.
Vlw ai ;D
Achei excelente sua descrição, acabei de me formar e tenho interesse em fazer mestrado na área de Filosofia, semana passada comprei o livro O Principe..e confesso que em duas semanas de leitura..só posso dizer que extraordinário!! principalmente depois de comentários como este..as reflexões vão sendo alimentadas com textos tão bons.
O Prof. José Luiz Ames é um autor apaixonado que escreve com coerência sobre “a lógica da ação política” em maquiavel.
Oê! Mas vem pra cá, vem cá!
Muito bom o texto! Me salvou no trabalho de Filosofia!
Oê!! Sai pra lá, vai pra lá!
“Inventar um mecanismo de decisão que gere mais favorecidos do que prejudicados”.
Parece que a busca em Agradar e agradar a maioria é o Foco principal.mas quem é a maioria? se quando estão exercendo o poder político visão interesses do grupo ou de Grupos(panelinha).
“os direitos dos cidadãos são determinados por suas próprias forças e limitados pela força do Estado.(Concordo ) Isso significa que o poder do Estado é absoluto de direito, mas não de fato, (Por que depende da Maioria?) pois é limitado pela força dos indivíduos. Igualmente, o poder político é opressor, mas a opressão é finita”.
“A força não é bruta. A verdadeira força é aquela que vem somada à astúcia”. Vejo aqui a importância da retórica,da argumentação eficaz como ferramenta e instrumento de persuasão. Este também é um tipo de Poder.
Boa tarde!
Estou naquela correria e necessito urgente do resumo ou algo como vídeo, apresentação no data show enfim do livro Maquialvel ea Liderança Moderna.
Meu e-mail: moc.liamtohnull@olirumreffyelg
Obrigado.
Muito bem escrito. Parabéns ao autor. Além de me ajudar bastante com meus estudos da faculdade. Parece que irá cair uma questão que trata justamente da relação de força e política em Maquiavel!
O texto foi muito bem escrito.
Elogio, o mesmo, não somente por isso, mas; pela estilística que, este, possui; o que leva, todos, a uma reflexão sem igual; no que tange ao assunto políticas públicas.
Excelente comentário, você inteligentemente demonstrou habilidade na interpretação do pensamento de Maquiavel, artisticamente interpretado pelo referido autor em sua tese de Doutorado na UNICAMP, São Paulo. Parabéns e agradeço-lhe a recente visita ao nosso sítio. Seja bem-vindo