Rousseau: Defensor Moderno da Democracia
Jean-Jacques Rousseau nasceu em 1712, em Genebra, e morreu em 1778, nas proximidades de Paris. Durante sua juventude exerceu quase todas as profissões: foi aprendiz de escriturário, artesão, professor de música, camareiro, secretário, educador, funcionário do registro público de imóveis, copista de partitura, maestro, compositor de ópera e dramaturgo. Durante esse período, Rousseau vagueou entre Genebra, Itália, Suíça e França. Na sua obra “Confissões”, atribuiu a si próprio nesses anos todo tipo de vícios: roubos, mentiras, preguiça, difamação de moças inocentes, etc.
Na vida afetiva, Rousseau envolveu-se durante a juventude com uma dama da alta sociedade, Madame Warens, 13 anos mais velha. Uma vez separado dela, uniu-se a uma moça simples, camareira de um hotel, com a qual se casou depois de 23 anos de vida em comum. Teve cinco filhos, mas o grande teórico da educação não sabia o que fazer com eles: mandou-os a um orfanato, porque faziam muito barulho e acarretavam altos custos!
Alcançou fama como escritor ainda em vida. Apesar do reconhecimento, viveu atormentado por doenças. Melancolia e hipocondria marcaram seus últimos anos de vida, assim como a desconfiança contra o mundo. Cortou relações com os amigos iluministas: Voltaire, Diderot, D’Alembert. Passou a ser perseguido pelas autoridades parisienses e genebresas por causa do caráter anticristão de seus escritos. Foi preso e suas obras queimadas em praça pública. A fama póstuma de Rousseau é, no entanto, incomparável. Durante a Revolução Francesa, seus restos mortais foram transladados para o Panthéon e sua obra foi determinante na formulação do pensamento político que se seguiu a ele até os dias de hoje.
A mesma inconstância que marcou sua vida pessoal pode ser notada igualmente na vida intelectual. Não foi um teórico que desenvolveu suas idéias de forma contínua. Antes, foi um homem de lampejos, cujas convicções brotaram de inspirações momentâneas. Foi assim, durante uma caminhada ao castelo de Vincennes, no qual estava preso seu amigo Diderot, que lhe ocorreu a idéia central de seu pensamento: “o homem é bom por natureza; as instituições é que o tornam mau”.
Sua obra será uma crítica radical de sua época ao mesmo tempo em que é uma tentativa de penetrar na essência do homem em sua pureza original. “O homem nasceu livre, mas por toda parte encontra-se aprisionado”, escreveu Rousseau na abertura de sua obra “Do Contrato Social”. O problema que ele se colocava era: de que modo a natureza original do homem pode conciliar-se com a existência em sociedade e no Estado?
A política moderna, segundo Rousseau, baseia-se num entendimento parcial do homem. O Estado moderno dedica-se à sua própria conservação. É, por isso, um modo de vida exatamente oposto ao que poderia tornar felizes os homens. A sociedade mascara, falseia e coíbe a possibilidade original do homem de ser bom, pois nela predomina unicamente o amor próprio, raiz de todo mal. Com que direito pode a sociedade exigir de um homem que se sacrifique por ela? Como pode um indivíduo egoísta exigir que outro lhe obedeça? Nas próximas reflexões examinaremos a proposta de Rousseau a partir de duas obras fundamentais: “Do Contrato Social” e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”.
* José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da UNIOESTE, Campus de Toledo.
Veja também:
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